Recentemente foi lançado o livro O sol bailou ao meio-dia: a Criação de Fátima, por Luís Filipe Torgal. O livro é uma revisão de um outro lançado em 2002 pelo mesmo autor, com o título As aparições de Fátima: Imagens e representações, com algumas substanciais revisões e adições.

O livro não se debruça sobre a veracidade das aparições, ou seja, a questão de terem sido um fenómeno concreto e real não é o enfoque desta obra – apesar de ser notória a posição do autor. Trata-se sim de analisar como o evento sendo construído ao longo dos anos para se tornar o fenómeno que Fátima é hoje, no contexto nacional e internacional. É, acima de tudo, uma análise do fenómeno, da contextualização do mesmo no século XX português e na forma como foi aproveitado para dois campos muito específicos da realidade portuguesa.

Talvez seja necessário relembrar que o final do século XIX e o início do século XX foi marcado por dois campos antagónicos, politica e ideologicamente, o campo do republicanismo – anti-clerical, anti-monárquico – e o campo mais conservador, ligado à monarquia e à posição da Igreja. Não deve ser ignorado o ataque que a Igreja sofreu neste período. Também não deve ser esquecida a visão real do país nesta conjuntura – um país extremamente dividido entre uma sociedade urbana, reduzida em termos populacionais e um país rural, maioritariamente analfabeto.

O que tornou as aparições de Fátima um caso extraordinário? Numa análise fria, exactamente a questão de ter acontecido naquele momento histórico específico. Poderia ter sido apenas uma mera curiosidade no conjunto da religiosidade popular. Acontece, que o ano de 1917 não é um ano como 2001. Um ano marcado por convulsões sociais e políticas específicas com a agravante da Europa estar em guerra e Portugal ser um infeliz participante.

São estes dois campos que fazem das aparições em Fátima aquilo que Fátima se tornou hoje. E para isso contribui a recém formada opinião pública – nascida das convulsões do século XIX, com o advento dos jornais – do peso que a palavra escrita foi tendo ao longo destes tempos, não obstante o facto da sociedade portuguesa ser maioritariamente analfabeta. O autor não demonstra qualquer pudor em demonstrar como a propaganda intelectual, republicana e revolucionária contribuiu para dar trunfos, se bem que inconscientes, diria mesmo ingénuos, para o nascimento de toda a mística em redor de Fátima como exponente de uma luta entre o movimento anti-clerical e a reposição de um sentimento divino religioso.

Para avaliar de que maneira as aparições provocaram as paixões e o repúdio de ambos os campos, as fontes que o autor privilegiou foram os media portugueses da altura, de ambas correntes políticas e ideológicas. Os relatos que serviram de base para esta obra encontram-se, na íntegra, em anexos no final do livro, com excepção – infelizmente – das reproduções dos interrogatórios feitos a Lúcia em 1917 e também do relatório Oficial da Comissão canónica Diocesana de 1930.

Uma grande surpresa foi ver que que nem sempre os jornais da época corresponderam à sua corrente ideológica. Por exemplo, o grande motor para o desenvolvimento do fenómeno foi o relato de Avelino de Almeida, enviado do jornal republicano O Século para relatar as aparições de Outubro e que “parece mesmo demonstrar alguma disposição para aceitar tratar-se de um facto sobrenatural (…)”. Será este artigo e outro do mesmo autor publicado na revista Ilustração Portuguesa que irão ser “invocados como prova insuspeita da ocorrência do milagre.” [pag. 49].

Ao mesmo tempo, surgem do campo conservador e católico posições cépticas e de alguma reserva, como é o caso de um artigo publicado no periódico A Ordem sob a pena do pseudónimo de Domingos Pinto Coelho, que, como curioso, esteve em Fátima no dia 13 de Outubro. Relata como o sol, tendo surgido após ter estado encoberto de nuvens, provocou imediatamente um efeito de admiração, pela sua aparente anormalidade. No entanto, o mesmo fenómeno será visível, dias depois, em condições atmosféricas análogas.

Ao longo da análise, estará patente a evolução dos relatos pela vidente Lúcia, que numa primeira fase, demonstram uma simplicidade extrema, passando depois pela construção ideológica da Igreja, através da disciplina, ordenamento (compra dos terrenos da Cova da Iria por elementos católicos logo nos anos 20), controlo e, por fim, oficialização do culto, contando, para isso, com governos que logo a partir de 1918 desenvolveram tentativas de aproximação à Igreja.

Nas palavras de Fernando Rosas no prefácio,  “Numa primeira fase, Fátima é um pólo da cruzada pela restauração do país cristão (…). A partir da segunda metade dos anos 30, sob os ventos da guerra civil de Espanha Fátima torna-se um símbolo internacional da resistência internacional: o pólo de irradiação moral da resistência ao comunismo (…)”

No geral é uma excelente visão de como o fenómeno de Fátima foi aproveitado para a questão religiosa. A evolução do culto, de uma simples curiosidade que facilmente cairia no esquecimento, para se tornar num fenómeno de massas enquadrado ideologicamente pela Igreja católica para servir de arma contra os “males” do mundo.

A introdução feita por Fernando Rosas é apenas uma de entre as várias introduções que este historiador fez para as mais recentes edições da Tinta da china e que se centram nas comemorações da República. Convém igualmente dizer, que Fernando Rosas, como professor da Universidade Nova de Lisboa, especialista em História Contemporânea portuguesa, é uma presença incontornável neste campo da historiografia daquela universidade.

Publicado também no Portal Ateu