Acupunctura: Uma prática milenar?

A evolução da prática da Acupunctura ao longo dos últimos séculos: Da prática de sangria à prática gentil, milenar e holística.

No último post falámos sobre as origens da acupunctura e como esta prática pode ter origem numa concepção do corpo, da doença e entendimento do universo muito próximas àquelas que percorreram toda a Antiguidade mediterrânica  e medievalidade europeia.

RHYNE, Willem ten Dissertatio de arthritide[…]: De acupunctura:[…] London: R. Chiswell, 1683. [SGC RBK R.91]A Acupunctura desenvolveu-se ao longo do segundo milénio na China ao lado de outras práticas, como o uso de ervas medicinais, dietas e moxabustão. Como a prática de dissecação era proibida, esta prática sobreviveu sem um real conhecimento anatómico.[1]

Durante a Dinastia Ming (1368-1644) foi publicado o Compêndio de Acupunctura e Moxabustão. Nele estão descritos um conjunto de 365 pontos de acupunctura que, de acordo com A. White e E. Ernst, são usados ainda hoje na actualidade. [1] No entanto, David Ramey refere que os textos antigos não nos dão indicações precisas da localização dos pontos de acupunctura. [2]

Durante o século XVII, o interesse pela acupunctura sofreu um considerável declínio. A administração de ervas medicinais e cauterização, pelo contrário, parecem ter sido as práticas médicas mais generalizadas.  A acupunctura ficou relegada para a prática de “rua”, feita por homens e mulheres iletrados, praticamente sem treino. [1] [3]

É no final desse mesmo século que  Willem ten Ryhne, um holandês ao serviço da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais (WIC) no Japão, escreve aquele que terá sido o primeiro tratado europeu sobre acupunctura, Dissertatio de Arthritide: Mantissa Schematica: De Acupunctura: Et Orationes Tres, publicado em  1683. Ten Ryhne terá sido também o responsável por ter cunhado o termo acupunctura. [4]

Apesar de não descrever a filosofia que estava por detrás da prática, ten Rhyne descreve a prática de “picar com uma agulha”, por vezes gentilmente, outras com o auxílio de um martelo. Também faz a identificação dos pontos de acupunctura e identifica os pontos e as linhas que os unem como veias. [4] (No texto em hyperlink, esta identificação é assumida como um erro da parte de ten Rhyne)

Na China, durante o século XIX, os avanços da medicina fizeram relegar as práticas tradicionais para o campo da superstição. Em 1822 um édito do Imperador Daoguang (1782-1850) baniu a prática e o ensino da acupunctura da Academia médica Imperial, sendo a prática considerada uma barreira ao progresso da medicina. [1]  O mesmo acontecerá no Japão em 1875. No ano 1929, a China criminalizou a prática. [1] [3] [6] [8]

Durante o período entre 1927-36, são praticamente inexistentes as menções a “medicina” tradicional chinesa e não são publicados quaisquer artigos sobre acupunctura nas revistas científicas. [2]

Nos anos 30, um pediatra chinês, Cheng Dan’an (1899-1957) tendo estudado no Japão, propôs a recuperação da terapia de agulhas porque a sua acção poderia ser explicada pela neurologia. Tendo como base os conhecimento de anatomia e fisiologia, reposicionou os pontos de modo a fazê-los coincidir com as vias nervosas e a desviá-los das veias, onde anteriormente teriam sido usados para as sangrias. [3] [7] [8] [9] [10]

RHYNE, Willem ten Dissertatio de arthritide[…]: De acupunctura:[…] London: R. Chiswell, 1683. L0029014Cheng Dan’an também é responsável pela introdução de um novo tipo de agulha que irá substituir os modelos anteriores. Em vez das agulhas grossas, a prática desta terapia usará, exclusivamente, o uso das agulhas filiformes que hoje associamos à acupunctura contemporânea. [7] [8]

A reforma de Cheng Dan’an será um sucesso. A  escola de acupunctura que Dan’an fundou na China e os seus 3 livros sobre o tema permanecerão uma referência para a prática da acupunctura até hoje. Dan’an serviu nos comités nacionais com intuito de introduzir reformas na educação e política médica após a Revolução Comunista em 1949. [3] [9]

Em 1950 Cheng Dan’an terá abandonado a ideia da eficácia funcionar apenas através dos nervos, tendo atribuido a eficácia ao poder do Qi e ao estímulo dos nervos. [9]

É no seguimento da Revolução Comunista em 1949 e à tentativa ideológica de ressuscitar uma prática nacional capaz de providenciar um sistema de saúde barato para grande parte da população que a Medicina Tradicional Chinesa, incorporando agora a acupunctura reformada por Dan’an, ganha um verdadeiro fôlego. [1] [3] [5] [6]

Numa nota curiosa, a acupunctura auricular (feita exclusivamente na orelha) foi inventada por um francês em 1957. [11]

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No Ocidente

Durante o século XIX na Europa houve algumas tentativas de aliar o mecanismo da acupunctura com as descobertas científicas da época, substituindo-se o conceito oriental de Qi com a electricidade no corpo. Ainda no século XIX a Acupunctura continuou a gerar bastante curiosidade no mundo ocidental, chegando a ser publicado em 1836 na Lancet um estudo sobre a eficácia do tratamento.  No entanto, pouco depois o interesse pela prática diminui, provavelmente como reflexo de algum preconceito em relação à China durante as guerras do Ópio. [5]

É só após a visita à China feita por Henry Kissinger em 1971, como preparação para a visita histórica de Nixon,  que a acupunctura merece uma atenção séria no mundo ocidental. Um dos jornalistas que acompanhava a comitiva, James Reston sofreu um ataque de apendicite durante a visita, sendo obrigado a recorrer a cirurgia no hospital Anti-imperial em Pequim. Após a operação, tendo ainda dores, foi tratado com acupunctura, “que teve o efeito de distrair a atenção de Reston do abdómen para o local onde estava a ser inserida a agulha”. A experiência foi relatada num artigo publicado pelo New York Times a 26 de Julho de 1971. [5] [12]

A leitura que se fez do artigo em questão provocou uma verdadeira onda de curiosidade e enganos que se prolongam até aos nossos dias. Notícias de cirurgias feitas usando apenas acupunctura em substituição de anestesia começaram a ser recorrentes. Estes feitos, credibilizados por relatos feitos por médicos norte-americanos, tiveram um efeito muito positivo e imediato na popularização da acupunctura nos Estados Unidos. [5] [13]

Cirurgia usando anestesia com acupunctura.
Crédito: Dr. Rosenfeld

Gradualmente começou a ser notório que os relatos e os vídeos que demonstravam pacientes a serem operados com recurso a acupunctura como anestesia eram o resultado de observações ingénuas de médicos e observadores ocidentais não habituados à manipulação e à propaganda política. [5] [14] [15] Não obstante, é possível ainda hoje encontrar vários relatos acríticos e publicidade sem fundamento sobre a existência da “anestesia feita por acupunctura”.

A popularidade da Acupunctura está ligada também ao clima dos anos 60 e 70 – a ideologia hippie, ao novo culto pelo oriente, a ressurreição da mística oriental, do oculto e também uma profunda imersão no pensamento pós-moderno que tende a ver a ciência como apenas um discurso sobre realidade como todos os outros. [7b]

 Conclusão

A Acupunctura, tal como a conhecemos na actualidade, está longe de ser uma terapia milenar. Aparenta, no entanto, ter uma origem nas concepções vitalistas que percorreram todo o globo desde o Neolítico. Nascida dos conceitos da astromedicina e englobando a prática das sangrias, sofreu uma grande transformação durante o século XX e permanece ainda hoje envolta em equívocos.

Sobre esta evolução aqui proposta, recomendo a leitura do artigo escrito por Ben Kavoussi The Untold Story of Acupuncture

Estes dois artigos na COMCEPT debruçaram-se apenas sobre a origem e evolução desta terapia. Sobre a eficácia do tratamento, recomendo a leitura do artigo do João Coutinho, Um olhar céptico sobre a Acupunctura.

Fontes:

[1] A Brief History of Acupuncture

[2] Acupuncture Points and meridians do not exist 

[3] The Development of Modern Chinese Acupuncture and Why It Matters to Us in the West

[4] On acupuncture

[5] Trick or Treatment“Acupuncture“, Edzard Ernst, Simon Singh

[6]  Acupuncture: A History

[7] Astrology with Needles é um excerto de um artigo que Ben Kavoussi escreveu para a revista Focus on Alternative and Complementary Therapies, 2009 com o nome “The Untold Story of Acupuncture”. O artigo completo, embora sem as devidas referências pode ser lido no blog [7b] DeQuackwatch

[8] The Acupuncture and Fasciae Fallacy

[9] Cheng Danan 

[10] Bleeding Peripheral Points

[11] History of Ear Acupuncture

[12] Now, Let Me Tell You About My Appendectomy in Peking…

[13] Questioning Dr. Isadore Rosenfeld’s China Acupuncture Story

[14] Acupuncture Anesthesia– A proclamation of Chairman Mao I

[15] Acupuncture-anesthesia-redux

Publicado originalmente na Comcept.

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